O escritor e especialista em Vaticano, John Allen Jr., disse que a
crise provocada pelos abusos sexuais cometidos por sacerdotes católicos
contra menores é a mais grave dos primeiros cinco anos de Bento 16 como
líder da Igreja Católica, e que ela corre o risco de paralisar "por
meses e anos" o seu pontificado.
O papa Bento 16, que fez 83 anos na semana passada, completa nesta segunda-feira cinco anos à frente da Igreja Católica.
Em entrevista à BBC Brasil, o vaticanista defende Bento 16 de algumas
das críticas e afirma que o pontífice fez, antes e depois de sua
eleição, "mais do que qualquer dirigente de seu nível na Igreja para
responder bem a esta crise".
Confira abaixo a entrevista:
BBC Brasil: Quais as conseqüências que a crise provocada pelo escândalo da pedofilia pode ter para o pontificado de Bento 16?
John Allen: Se o Vaticano não desenvolver uma capacidade mais
articulada para comunicar e governar, há um sério perigo que este
pontificado fique paralisado por meses e anos, em tentativas constantes
de responder apenas à crise do momento, invés de prosseguir. Aos olhos
do mundo, este pontificado é associado a uma cadeia de crises, isto
porque o Vaticano não é capaz de comunicar bem com a realidade.
BBC Brasil: De quem é a responsabilidade por isso?
Allen: O problema é a falta de competência dos colaboradores de Bento
16 em comunicar e em ajudar direito o papa. No caso dos abusos sexuais,
os comentários do pregador da Casa Pontifícia, Raniero Cantalamessa
(que comparou os ataques ao papa por causa dos abusos à perseguição
contra os judeus), do cardeal Angelo Sodano (que na Missa de Páscoa
manifestou solidariedade ao papa criticando o "falatório" sobre os
abusos sexuais) do cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do
Vaticano (que disse existir uma relação entre homossexualismo e
pedofilia), queriam ser úteis. Eles não tinham consciência de que iriam
enfraquecer a Igreja e o papa, que é seu representante.
BBC Brasil: Esta crise então enfraqueceu Bento 16?
Allen: Do ponto de vista da imagem, sem dúvida enfraqueceu. Todos estes
escândalos, crises e controvérsias, de certa forma escondem do mundo os
aspectos positivos deste pontificado e do papa, cujo ensinamento é
elogiado até por pensadores leigos. Isto demonstra uma crise de governo
neste Pontificado, porque o trabalho desenvolvido pelo papa não chega
às pessoas.
BBC Brasil: Depois dos escândalos da pedofilia de sacerdotes, a igreja ainda tem credibilidade moral?
Allen: A Igreja Católica agora não tem credibilidade para pregar a
moralidade ao mundo, se não é capaz de praticá-la dentro de sua casa.
Nos Estados Unidos, os bispos contam que quando falam publicamente
sobre aborto, homossexualismo ou outro tema moral, abordado pela
igreja, os fiéis respondem que não vão ouvi-los enquanto não for
resolvida a crise moral dentro da própria Igreja.
BBC Brasil: Nos Estados Unidos, onde esta crise começou, os fiéis deixaram de frequentar as igrejas?
Allen: Quando os casos começaram a surgir nos Estados Unidos, houve a
previsão de que os católicos deixariam de ir a missa e de fazer doações
econômicas à Igreja Católica, mas isto não ocorreu. A frequência e as
doações permaneceram estáveis. Os católicos de qualquer lugar sabem
distinguir entre o fundamento verdadeiro de sua fé, isto é, Deus, Jesus
Cristo, e a instituição Igreja, e seus dirigentes.
BBC Brasil: Por que, em sua opinião, os casos de abusos praticados por
sacerdotes eram ocultados? Havia uma norma que obrigava a manter sigilo?
Allen: Os jornalistas estão à procura da "prova do crime", um documento
ou uma lei que explique porque a Igreja Católica manteve os casos de
abusos cometidos por religiosos contra menores acobertados durante
tanto tempo. Mas isto é perda de tempo. Não há uma ordem de Roma
obrigando a manter o sigilo, mas uma cultura do silêncio criada em
séculos, da qual todos eram cúmplices, bispos, papas e todos os
católicos. Roma não ordenou o silêncio, mas nem a transparência. É isto
que precisa ser mudado, com leis e colaboração com a Justiça Civil . A
cultura do silêncio, no entanto, é muito mais profunda e mais difícil
de mudar do que uma lei.
BBC Brasil: O que o papa fez até agora para combater a pedofilia na Igreja é suficiente?
Allen: Posso dizer, como vaticanista, que não há o menor grau de dúvida
de que este papa, antes e depois de sua eleição, fez mais do que
qualquer dirigente de seu nível na Igreja para responder bem a esta
crise. Embora a opinião geral sobre Bento 16 seja negativa, devido ao
escândalo dos abusos, ele é um renovador porque abateu o muro de
silencio do Vaticano sobre este tema. Criou um novo sistema, mais
rápido e eficaz, para disciplinar os padres que abusaram, foi o
primeiro papa a encontrar as vitimas e adotou a política da tolerância
zero. Agora, se estas reformas são suficientes, se tem ainda caminho a
ser feito, isto é outra questão e há opiniões diferentes a respeito.
BBC Brasil: Depois dos escândalos a Igreja pode rever sua posição em algumas questões morais?
Allen: Acredito que não haverá mudanças no ensinamento da Igreja
Católica com relação a temas como aborto e homossexualismo. O papa e os
cardeais estão mais determinados do que nunca a manter o conteúdo deste
ensinamento. A consequência da crise, dentro da Igreja, não é favorecer
um clima mais flexível e mais aberto a mudanças, mas ao contrario, será
mais rígido, controlado e disciplinado.
BBC Brasil: Dois advogados querem pedir a prisão do papa quando ele
visitar a Grã-Bretanha em setembro por causa do envolvimento de
sacerdotes com abusos a menores. Outras pessoas pediram que o papa
renuncie. Isto é possível?
Allen: Estas não são propostas serias. Teoricamente, é possível que um
papa se demita, o cânone 332 (do código de direito canônico) contempla
esta possibilidade. Mas não acontece com freqüência. Houve cinco, seis
ou no máximo sete casos, em mais de dois mil anos de história. Não é
uma hipótese a ser levada em consideração.
"Jesus então lhe
disse: Feliz és, Simão, filho de Jonas, poque não foi a carne nem o sangue
que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus.E
eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha
Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela."
MT16, 17-18